quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Repartir!


Repartir: partir de nouveau; retourner (partir de novo, voltar).

Assim começou esse blog e assim ele se encerra.

Esse mês, arrumamos novamente as malas, pela terceira vez nos últimos 9 meses, e retornamos ao Brasil. Com alguns porquês, poucos "senões", decidimos voltar para casa. Estamos com saudades, um pouco cansados e,  para nós, a "aventura" deixou de valer a pena.

Durante esse tempo, pudemos, não somente, reforçar algumas idéias que tínhamos sobre viver fora, como também rever tantas outras. Dia após dia, pesamos os prós e os contras e nos perguntamos até que ponto a vida na França estava sendo boa para nós e quais as possibilidades teríamos de seguir adiante. Sobretudo, dia após dia, nos questionamos sobre os reais objetivos dessa decisão e se eles ainda seriam válidos.

Com certeza, penso que a máxima de que toda experiência é válida, não se trata de clichê. Tudo soma-se ao que fomos e vivemos e agrega no que iremos nos tornar ou o que irá se reforçar em nós. Filosofa barata? Talvez.

Pensei em como seria esse post e se, de fato seria o último, pois acho que tenho ainda a contribuir com minhas percepções e com informações sobre aspectos da vida aqui, especialmente para quem pensa em vir para cá.

Pensei em falar sobre a velha burocracia francesa, sobre as dificuldades com alguns tipos de serviços, sobre como a especulação imobiliária afeta a vida das pessoas, sobre como as coisas têm se desenrolado por aqui com o aumento da imigração e a questão dos refugiados, sobre como é realmente tenso o clima entre muçulmanos e judeus (e não judeus) por aqui e como isso impacta a vida de muçulmanos, judeus (e não judeus) no dia-a-dia, sobre como a vida por aqui é suada para imigrantes, mas também para os franceses.

Pensei também em ressaltar a cordialidade dos franceses (Sim, eles são cordiais. Francos, mas cordiais), em falar como os direitos são levados a sério (a despeito da burocracia), de como as pessoas por aqui se mobilizam, de como é bom ver o dinheiro do seu imposto aplicado de forma responsável.

Mas decidi resumir as coisas e dizer: estamos voltando! Foi bom, foi duro, foi aprendizado e estamos voltando.

Algo que me marcou, particularmente, foi ver como por aqui as pessoas têm realmente orgulho do que é seu. Como cada região se orgulha de suas especificidades e como aqui a cultura nacional é valorizada. E essa foi uma baita lição!

Adoro a França, sentirei saudades daqui, das pessoas que conviveram conosco e espero, ainda, voltar um dia. Mas, para nós, toda essa experiência serviu para reforçar quem realmente somos e ao que pertencemos.

Alors, je dis merci et au revoir!



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Au revoir Paris... À toute à l'heure Lyon!

Passados pouco mais de 5 meses, nos vemos às voltas com uma nova mudança de endereço. Próxima parada: Lyon.

Muitas coisas aconteceram desde a última postagem. O Vô Careca voltou para sua casa, a Rê, minha cunhada, passou por aqui alguns dias, tivemos visitas de amigos do Brasil, aguardo minha prima que mora na Suíça para os próximos dias. Sem falar nos parentes do meu marido que estão na França e que pudemos conhecer e estreitar os laços. No último fim de semana, estivemos em Montpellier pra conhecer seu tio-avô, irmão de sua avó, já falecida. Foi mais um episódio emocionante da nossa história por aqui.

Pudemos sentir o gostinho de fazer as compras no mesmo mercado semanalmente e sermos tratados como conhecidos, ou de passar todas as tardes para comprar baguetes na mesma boulangerie, onde nos tornamos clientes. De trocarmos gentilezas com as funcionárias da escola do Miguel e falarmos um pouquinho mais detidamente com a professora todas as manhãs, que relata com alegria os progressos que ele tem feito com a língua francesa.

As coisas também andaram bem no trabalho e passei os últimos dois meses como nounou de um americanozinho de 2 anos, caçula de uma família brasileira expatriada, que passará um tempo na França antes de voltar aos EUA.

Ou seja, após esses meses, que não são muitos, mas que foram intensos, começamos a nos sentir mais habituados ao novo cotidiano. Até ao pequeno estúdio onde moramos e que, aos poucos, ganhou um tiquinho mais de cara de lar.

Por outro lado, também pudemos sentir os contratempos de uma cidade grande, turística e, mesmo, a mais visitada do mundo. Especialmente na região onde vivemos até agora. Toda a correria do dia-a-dia, os eventos que se sucedem um após o outro, o mar de gente que trombamos pelas ruas, as estações de metrô interditadas por conta dos "colis suspectes" (pacotes suspeitos) deixados para trás.

Sim, Paris é uma festa, parafraseando Ernest Hamingway, e uma festa cara, muito cara. Especialmente para quem paga aluguel, como nós.

Eis que nesse meio tempo, surgiu uma oportunidade de trabalho para o meu marido na cidade de Lyon. Conversamos, pensamos e ponderamos que poderia ser uma boa ideia nos mudarmos para lá. Uma cidade um pouco menor (embora seja a segunda em área urbana da França), com um custo de vida mais baixo e uma qualidade de vida maior. E nos dispusemos a verificar isso.

A decisão não foi assim tão fácil, especialmente considerando se para o Miguel seria bom uma nova mudança, assim, tão depressa. Também porque, a princípio, não terei trabalho por lá. Mas, no fim das contas, as boas perspectivas pesaram mais e estamos apostando que lá poderemos ter uma vida mais tranquila.

Sendo assim, no início de dezembro, arrumamos novamente nossas malas, nos metemos dentro do trem e rumamos para nosso novo horizonte. Lyon, à toute à l'heure!


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A sorte bate à porta(?).


Estamos prestes a completar o terceiro mês vivendo na França e começamos a sentir que, se os ventos da sorte existem, eles têm soprado em nossa direção.

Primeiro, porque conseguimos passar pelos 2 meses iniciais, estabelecidos como "meta 1" do nosso projeto.

Avaliamos que, no geral, as coisas têm se desenrolado bem. Trabalho, entrada no processo de seguridade social, renovação do contrato de aluguel. Tudo isso significando a prorrogação dos nossos planos (e sonhos).

As coisas ainda um pouco apertadas, justas, mas acenando para um futuro (breve) um pouco menos austero. Isso tudo porque, por sorte (ou direito...), nesse mês de agosto consegui minha récépissé, ou seja, a permissão para viver e trabalhar legalmente na França. Também porque, junto com ela, veio a possibilidade do primeiro contrato e o primeiro emprego, que começo no início de setembro.

Como disse anteriormente, estávamos na correria de juntar a papelada para os vários tipos de dossiê que deveríamos dar conta e, dentre eles, o da minha carte de séjour, o próximo passo a seguir. Não conseguir a autorização para ficar certamente significaria que nossos esforços findariam em tempo breve pois, estava fora de cogitação ficar por aqui de forma ilegal.

Confesso que a insegurança era grande, pois quando estive pela primeira vez no Centre de Réception des Étrangers, apenas para ter acesso à lista de documentos que deveria juntar ao dossiê, imaginava que teria um caminho no mínimo longo pela frente.

Saí do Brasil com algumas informações que pesquisei, dentre leis de imigração e direitos de parentes de cidadãos de Estados membros da UE e, de certa forma, elas me deram algumas certezas. Sim, eu poderia pleitear e ter garantida minha estadia no exterior. Mas em quanto tempo? Essa era a grande incógnita.

Por outro lado, também ouvi inúmeras histórias através de amigos, de pessoas que já estavam aqui e de casos de pessoas conhecidas de que esse pedido não seria assim tão tranquilo de ser atendido, e que poderia demorar muito tempo, inclusive anos, até que o Governo francês resolvesse se convencer de sua legitimidade. Também que o processo para imigrantes poderia ser moroso e que, não raro, muitos deles permaneciam ilegais por conta da demora da burocracia.

Na fila do CRE também surgiam muitas histórias... Encontrei, inclusive, um brasileiro que estava tentando apenas entregar seu dossiê há 1 ano e meio, pois a atendente sempre achava um documento que faltava ou não satisfazia. Um senhor, num francês embebido em sotaque árabe dizia na fila "la première demande c'est toujour la merde! Toujour!".

Ok. Sem ter para onde fugir, voltei para a casa com a tal lista e, ao final de dois meses, o dossiê estava pronto. Ou quase... Pediam documentos, comprovantes, dos últimos 3 meses e o que tínhamos era de apenas 2. Precísavamos de um contrato de trabalho do tipo CDI e tínhamos um CDD. Mas, voilà, era o que tínhamos e não dava para esperar mais 1 mês, pois eu precisava estar em  condições de ser contratada para um trabalho logo. O melhor era arriscar.

E por falar em trabalho, posso afirmar que aqui eles existem. Prova disso é que já na primeira semana em que viemos para cá eu estava com dois rendez vous (entrevistas) acertados, um para trabalho em uma imobiliária e outro para nounou. Praticamente não se passou uma semana sem que alguém ligasse para casa em resposta aos CVs enviados para anúncios. O que acontecia era que, sem ter os "papéis" franceses, ninguém contratava.

Cópias e orignais nas mãos, o Alê pediu um dia no trabalho (pois é exigida a presença do cônjuge ressortissant de la UE no ato da entrega do dossiê) e lá fomos nós. Chegamos 1 hora e meia antes do atendimento ao público iniciar. Já havia fila, óbvio.

Senha 15 na mão, entramos e aguardamos.

Existem dois tipos de fila, uma para refugiados que estão em demanda de asilo ou renovação de visto de permanência, que são de países fora da UE. A outra para pessoas que possuem algum direito de permanência no país, seja em razão de trabalho, de saúde ou pelo fato de serem parentes de alguém que está aqui e tem visto, parentes de membros da UE ou de franceses (e que também são de países fora da UE).

A fila que nos encontrávamos era a da tal première demande (que "c'est toujour la merde"...). Ou seja, aquela em que o atendimento demorava muito mais e na qual meu dossiê poderia nem ser aceito. Como não bastasse, o atendimento era realizado ali mesmo, no saguão, sem privacidade e, por uma infelicidade do destino, naquele dia, a atendente parecia estar de muuuuuito mal humor.

Já ouvi muito falar por aqui que os processos burocráticos dependem, em grande parte, de quem te atende. Que ótimo (#sqn). Isso quer dizer que a pessoa que está na sua frente pode te ferrar ou te salvar de acordo com seu bel prazer... Prefiro achar que isso não é dessa forma pois, até agora, as pessoas que nos atenderam nas repartições públicas foram sempre muito atenciosas.

Bom, voltando aos fatos, aquela francesa mal educada fazia questão de falar alto e parecia querer expor as pessoas que estavam ali. Que raiva, que vontade de confrontá-la e... que medo!

Senha 14. Logo seríamos nós. E lá vem a tal da sorte.

A pessoa atendida antes de mim ficou enroscada com a mal educada e a fila dos refugiados já estava pequena. Começaram a bipar a próxima senha para atendimento em outro setor.

Não sei dizer se todos os papéis estavam lá onde deveriam estar e da forma que deveriam estar, não sei se, independentemente de qualquer coisa, eu tinha de fato o direito e isso era indiscutível, ou se a atendente (muito mais calma) era mais sensível às questões da imigração. Só sei que saí de lá com meus papéis nas mãos e um entrevista agendada para dezembro, para atribuição da carte de séjour.

Na verdade, sai de lá com a chamada récépissé. Algo como uma autorização provisória, pois esta só pode vir após a entrevista. mas com ela já possuo alguns direitos em território francês.

A palavra era: felicidade!

Finalmente, dá pra respirar mais aliviada e continuarmos nossa "saga".
















segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nos ajeitando com a papelada.


Daqui a alguns dias estaremos completando 2 meses na França. A sensação que tenho é que estamos por aqui há bem mais tempo que isso. "Dois meses nem é tanto tempo assim! Há que se ter calma! Há que se ter paciência!". Sim, e há que se ter disposição para começar a reorganizar a vida de novo. Em tudo.

É certo que, por um lado, as coisas aconteceram rápido pra nós e, com dois meses, já podemos tocar a vida, nos aspectos básicos, a partir de recursos que já conseguimos obter por aqui. Como diria o Alexandre, ganhamos um pouco mais de fôlego e nossa "ampulheta" corre um pouco mais devagar agora.

Paralelo a isso, vamos nos deparando com os aspectos burocráticos da nova vida, e aí, nesse ponto, é que "a porca torce o rabo", como diriam as pessoas mais velhas.

É um tal de dossiê para isso e dossiê para aquilo, que tem horas que a gente se sente afundando em meio a tantas cópias de papéis. Pois é, por aqui tudo depende de "deposer votre dossiê" para que as coisas comecem a andar. Isso para franceses e para não franceses.

Dependendo do serviço que se pleiteia, o dossiê pode conter mais ou menos peças e você só vai saber, de fato, do que precisa, numa primeira ida pessoalmente ao órgão em questão, simplesmente para pegar a lista de documentos. Em alguns casos você consegue saber da lista via online mas, a impressão que tive, é que só vai conseguir a informação completa se for até o local pessoalmente, mesmo porque, sempre vão te entregar um formulário a ser preenchido.

Você precisará compor um dossiê para alugar um imóvel, pleitear uma carte de séjour, ter acesso à "Carte Vitalle" da Assurance Maladie, dentre outras coisas.

No geral, um dossiê deve conter as cópias de: uma peça de identidade, a certidão de nascimento (aqui na França é FUNDAMENTAL para acessar serviços públicos a sua certidão de nascimento), um comprovante de residência, um contrato de trabalho, um comprovante de salário. Outra coisa fundamental é ter números de telefones, especialmente um número de celular.

Pois bem, o fato é que ter um dossiê completo pode demorar um pouco... Ou seja, você vai se deparar com a dura realidade de que só terá acesso a algumas coisas básicas, como seguridade social/saúde, depois de alguns meses morando aqui.

Bom, chegamos com um primeiro contrato de locação. Comprovante de residência ok! Isso porque, como disse, fizemos tudo a partir do Brasil, por uma agência imobiliária específica para locação de imóveis para estrangeiros. No entanto, se fôssemos tentar um contrato de locação de um outro imóvel agora, a partir da nossa atual situação, iríamos nos deparar com um dossiê monstruoso! Pra começo de conversa, é necessário ganhar 3X o valor do aluguel e ter um CDI (contrat à durée indeterminée ou contrato de trabalho de tempo indeterminado) para poder pensar em apresentar um dossiê de locação.

Como o Alexandre logo começou a trabalhar, começamos cedo a formar nosso dossiê "básico".

Com contrato de trabalho em mãos e um primeiro comprovante de pagamento, foi possível abrir logo uma conta num banco. A escolha foi por um banco português, para facilitar as operações e entender os trâmites (obrigada aos primos pela mãozinha com relação a isso!). Com a conta, temos um "RIB" (relevé d'indentité bancaire), ou seja, dados para operações bancárias.

Certidão de nascimento traduzida na França + Comprovante de residência + contrato de trabalho + boletim de pagamento = Dossiê para dar entrada na Assurance Maladie, ou seja, ter assistência médica subsidiada pelo Estado.

Comprovante de residência + contrato de trabalho + boletim de pagamento + RIB = possibilidade de adquirir um número de celular.

Peça de identidade (da UE)+ comprovante de residência + contrato de trabalho (ou declaração de estudante) = acesso à Carte Navigo, cartão de transporte com tarifas reduzidas.

Peças de identidade minha, do Alê e do Miguel + certidão de casamento (traduzida) + certidão de nascimento do Miguel (traduzida) + comprovante de residência + seguro residencial + carteira de vacinação = inscrição na escola.

Agora, de longe, o dossiê mais complicado de juntar as peças necessárias foi o de pedido de carte de séjour!

Seja porque, pra começar, precisei esperar minha certidão de nascimento vir do Brasil e, depois, mandar traduzí-la aqui, seja porque o Alexandre precisava ter boa parte dos documentos acima. Também foi necessário fazer um seguro pessoal. Ou seja, meu pedido está totalmente vinculado à estabilização da vida dele na França, afinal de contas, ele tem a cidadania européia e precisar ter garantias que poderá manter sua família aqui.

Bom, pouco a pouco vamos nos ajeitando com a papelada e, se de alguma forma, isso acelera a passagem do "nosso" tempo, de outra forma, o tempo "das coisas" fica suspenso em sua efetivação.

É nossa ampulheta contra a ampulheta da burocracia e, nesse impasse, 2 meses podem bem parecer 2 anos, 2 décadas, 2 séculos...




sábado, 4 de julho de 2015

Sobre ser estrangeira ou nativa.


Tenho pensado um bocado sobre como tenho me sentido por aqui nesse pouco mais de um mês e, a reflexão principal diante dos acontecimentos do cotidiano está em torno do que é, de fato, sentir-se estrangeira.

A realidade é: ainda não sei.

Quando saímos para morar na França, viemos cheios de idéias pré concebidas sobre o jeito "seco" dos franceses, de como os vizinhos franceses podem ser mal humorados, de como as "crianças francesas não fazem manha", de como os estrangeiros podem ser hostilizados...

Sinceramente, ainda não pude perceber bem essa realidade. Também é verdade que ainda não tive tantos contatos assim com os "nativos" para saber se, de fato, toda essa fama é real. Seja porque, felizmente, temos convivido bastante com nossos parentes portugueses que estão aqui, seja porque, para onde olho, vejo imigrantes.

O Alexandre também tem tido essas percepções.

Bom, eu como ainda estou em casa, passo parte do tempo perambulando pelos arredores onde moramos. É certo que estamos numa zona mais turística, ao centro, e que a circulação de turistas e imigrantes romenos, russos, indianos, chineses, portugueses, ambulantes africanos, é bastante grande, o que torna não fortuito os encontros com essa galera.

Por outro lado, o quartier onde estamos também é conhecido por ser um bairro tradicional, o que, deveria, em tese, nos colocar em contato mais direto com a classe média e alta parisiense, conhecida pelo seu esnobismo. Pois bem, aqueles que conseguimos identificar como moradores e vizinhos mostram-se educados e, até, simpáticos. Além do fato de tropeçarmos em carros luxuosos a todo tempo, não vimos ainda nenhum grande sinal de ostentação. Bem, os turistas acabam se encarregando disso por vezes...

Já o Alexandre, no seu dia-a-dia no trabalho, tem conhecido um outro paradigma, o de um quartier periférico. Isso porque, grande parte das empresas de serviços como transportes, oficinas, empresas de marcenaria, fábricas, etc, estão instaladas nessas áreas. Pois bem, isso inclui onde meu marido trabalha atualmente. Nessas áreas também concentram-se a grande parte dos imigrantes que moram em Paris.

A equipe que ele integra conta, além dele (lusobrasileiro), com um marroquino, dois sérvios e dois guineenses, além de franceses de ascendência imigrante de outros países europeus.

O engraçado é que, no meio de toda essa mistura, não consigo me sentir estrangeira!

A França, segundo dados de 2014, é o 5º país da Europa, a receber imigrantes (a Alemanha está em 1º) e o perfil dessa imigração é, em primeiro lugar, de reagrupamento familiar, seguida pelos estudantes e, em terceiro, a imigração econômica.  A grande porcentagem de imigrantes é de pessoas oriundas da própria Europa.

Mas a impressão que tenho é que, em Paris, cabe o mundo! E isso ficou ainda mais claro depois que estive no Centre de Réception des Étrangers (Centro de Recepção de Estrangeiros) da Prefecture de Police de Paris, para dar entrada nos papéis da minha carte de séjour. Era tanta, mas tanta gente, das mais diversas partes do mundo, aguardando para colocar sua situação no país em dia. Mas esse episódio conto pra vocês depois!

Pra terminar.

Como havíamos sido convidados para a festa de encerramento do ano letivo da escola que o Miguel frequentará, e achamos que essa seria uma oportunidade legal pro nosso filho se ambientar, preparei uma bandeja do clássico lanchinho de pão de forma com patê de atum e lá fomos nós. Não pequena foi minha surpresa, logo na entrada, com a trilha sonora: The Final Countdown, da banda Europe. Diretor e professores estavam animadíssimos, servindo comes e bebes entre as crianças que corriam por todos os lados e seus pais, tranquilos, observando e interagindo. Observação: pais e crianças de várias nacionalidades.

Foram por terra mais alguns estereótipos: das festas controladas das escolas rigorosas francesas, corpo docente rígido e distante, pais esnobes e filhos "mini adultos"... Que bom!

Toda essa miscigenação me faz sentir mais à vontade!


segunda-feira, 15 de junho de 2015

As coisas entrando nos eixos.

Depois de passada a vertigem da primeira semana, enfim, a adaptação começa a nos acenar. Os corpos entrando no ritmo do horário local e nós entrando no cotidiano, moldando nossa rotina.

Na segunda semana, fomos ter um rendez-vous com o diretor da escolinha que o Miguel começará a frequentar em setembro. Fomos muitíssimo bem recebidos e pudemos sentir que nosso filho será bem acolhido.  O diretor nos recebeu sorridente e logo foi dizendo que o fato do Miguel não compreender nem falar ainda o francês não será problema algum, pois as escolas francesas estão acostumadas a receber alunos das mais diversas nacionalidades. Após todas as explicações acerca dos horários e do funcionamento da escola, fizemos uma visita às dependências e já fomos conhecer a turminha que o Miguel irá integrar. Fomos até convidados para a festinha de fim de semestre, que acontecerá no fim de junho, e onde os alunos e pais podem se integrar e se divertir juntos. Super! Vai ser ótimo retomar esse convívio escolar, com certeza!

Me apressei em ensinar algumas palavras e frases chave para o Miguel se virar sozinho no início. Apesar de ainda faltar alguns meses, percebi que já seria a hora, quando numa tarde no parquinho, meu filho virou-se para um menininho e perguntou: "brinca comigo?". O menininho, sem entender nada, balançou a cabeça afirmativamente, mas virou-se e saiu. O Miguel ficou muito decepcionado e tratou de brincar sozinho. Agora, ele já sabe que chegando ao parquinho é só pedir "jouez avec moi?" e a diversão estará garantida.

A segunda semana também foi de busca por trabalho. Pra amenizar um pouco a insegurança, eu e o Alê decidimos que um acompanharia o outro nesse primeiro momento. E assim foi. felizmente, um de nós começou no novo emprego exatamente hoje. O Alexandre terá seu primeiro contrato de trabalho em uma oficina especializada, tudo o que ele desejava! Eu ainda prossigo na luta...

Também hoje, estive na Prefecture de Police para obter informações sobre os meios de eu continuar legalmente no país. Fui informada de que deveria fazer a demande por uma carte de séjour conjoint citoyen européen, ou uma carteira de permanência específica para cônjuges de cidadãos europeus não franceses. De início achei a lista de documentos bem básica... Ainda essa semana devo me dirigir ao bureau que trata especificamente da região que moramos e fazer o pedido. Ainda não sei se terei o direito de trabalhar mas, como dizem por aqui, "je croise les doigts", ou seja, cruzo os dedos para que sim.

Devagar, as coisas vão entrando nos eixos e espero que assim continue!




sexta-feira, 5 de junho de 2015

Enfin, la France!


Pois cá estamos nós, na França. Passado todo o tempo de preparo, enfim, a hora chegou e aqui desembarcamos no dia 31 de maio. Houveram alguns contratempos com a viajem, pois perdemos a conexão Lisboa/Paris, mas entre mortos e feridos, chegamos todos sãos, salvos e exaustos!

Demos entrada no apartamento alugado tarde da noite e já aí começa o estranhamento... Afinal, naquele momento, adaptar-se a 25m² parecia uma tarefa quase impossível. Malas, roupas e pertences pelo chão e uma sensação de "quero minha casa" bateu, sem chance. Nessa primeira noite chorei, primeiro pelo espaço, depois pelo desconhecido, depois por cansaço e, depois e ainda, pelo sonho que começava a se realizar e pelo qual batalhamos tanto.

No segundo dia, o fuso horário foi implacável. E ainda no terceiro.

No quarto dia eu e o Alê saímos para nossas primeiras entrevistas de trabalho. O apartamento já organizado, todos já mais habituados, a ideia de lar se construindo devagar.

No quinto dia, hoje, Miguel matriculado na escola para a próxima rentreé, em setembro.

As coisas indo depressa, indo bem. Nós assustados, a velha história... esmola demais? Não, definitivamente. Viemos com força total e estamos a pleno vapor e, sendo assim, as coisas fluem até nós, ao mesmo tempo que somos atraídos até elas.

Destaque especial para o Miguel. Amando tudo, tanta novidade! Mas não está muito afim de ouvir falar na tal escola...

A partir de agora, a narrativa toma outros rumos. Continuem comigo, s'il vous plaît!